As Músicas do Maquinarama – Rebelião

Capa_Maquinarama

Na oitava análise da série #AsMúsicasdoMaquinarama temos um texto só, resultado da parceria entre a paulista Rakky Curvelo e a baiana Sara Conceição. Confira abaixo o resultado:

Guitarra marcada desde o início. Uma bela levada de bateria. E começa Rebelião. Um som que tem o peso das guitarras de Andreas Kisser não poderia ter uma letra qualquer. E é aqui que começamos. Se à primeira vista a música já parece sensacional, dê mais um tempinho, coloque a mente pra funcionar e mergulhe nas palavras: você verá que é ainda melhor.

As referências históricas não estão lá apenas para preencher os espaços vazios ou fazer rimar. Cada uma foi cuidadosamente escolhida e executada perfeitamente. O papel de comparar a realidade em que Rebelião foi escrita à da Idade Média (conhecida também como Idade das Trevas), na qual a ignorância foi quem mais fez vítimas, foi cumprida com excelência na mais uma vez indefectível parceria entre Samuel Rosa e Chico Amaral. 

A menção à Divina Comédia de Dante Alighieri é perceptível em vários trechos da letra, entre os quais se destacam: “inferno de dante diante de cada um…” e “sétimo círculo do último inferno, infecto / Sem luz, sem letra, sem lei / E pronto pra queimar”. Essa obra foi escrita no contexto de medo do desconhecido, em que muito se falava sobre o inferno, lugar de punição às almas que de algum modo desobedeciam à vontade de Deus. A letra da faixa 8 o Maquinarama compara a realidade do fim do século XX com o próprio inferno criado por Dante, uma vez que o sofrimento e desespero são elementos reais do cotidiano de quem está longe do tal mármore e vive aqui na Terra. 

Aqui, é importante relembrar o contexto histórico dos anos 2000, em que a letra foi escrita. Em um tempo de lutas entre o Afeganistão e o Iraque e com o apoio dos Estados Unidos à Israel, na segunda Guerra do Líbano, além de a política brasileira estar comprometida, graças à flutuação da moeda em 1999, o Skank parecia ao mesmo tempo entregar toda a indignação mundial numa letra cheia de desesperança e prever um dos maiores desastres mundiais, com o atentado às Torres Gêmeas, em 2001. 

 

Na obra de Dante, o sétimo círculo representa a violência como prática condenável e portanto passível de punição. Novamente, essa expressão não está na música por acaso. Qual lembrete de uma sociedade realmente infernal poderia ser mais real? A pura violência aparece como solução “plausível” e inquestionável.  

Com fortes cargas de desesperança, Rebelião prega que somente uma grande ofensiva poderia fazer a diferença. E é desse ataque, cheio de indignação e de ódio, que o vocal gritado de Samuel fala em toda a letra, em que a passividade tão comum na era medieval de Dante é fortemente combatida na dura realidade do dia a dia moderno. Nem Clinton, nem o papa, nem qualquer outra coisa possível poderia fazer-nos aceitar esse Inferno de Dante, em que a esperança é mato no coração, em que nada é acatável, nada mais é passível de permissão. 

Por fim, o trecho mais inteligente da música: “Nem a educação do colégio Rousseau / Pode dar conta do que aqui se passa…”, uma clara referência ao Iluminismo, movimento que teve como principal objetivo dissipar as trevas (ignorância), o que só poderia ser realizado utilizando a luz do conhecimento. Em Rebelião, no entanto, a situação relatada é tão grave que já se perdeu as esperanças e nem mesmo as atitudes mais brilhantes e revolucionárias poderiam resolvê-la.  O anúncio final é claro: vou dinamitar. Nada dá conta desse horror, então vamos explodir tudo e tentar começar de novo. 

E aí, gostaram? Para participar das próximas análises, além de conhecer as discussões do Fã-Clube sobre os mais diversos temas, é só participar do nosso Grupo, no Facebook.

Esperamos vocês aqui e lá!

Abraços e beijos,

Equipe Skankarados

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